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Nise da Silveira

Psiquiatra rebelde: era assim que Nise Magalhães da Silveira, a doutora Nise da Silveira, gostava de ser chamada. Na trajetória pessoal, nascida em 15 de fevereiro de 1905, carregando o signo aquariano das revoluções, ela fez jus a tal denominação, pois fora exemplo de resistência na arte de curar o espírito. Aos dezesseis anos, Nise entrou para a faculdade de Medicina de Salvador, mudando-se, em 1921, para a Bahia com o primo Mário Magalhães, colega de turma e, posteriormente, marido (Mário é um dos mais importantes sanitaristas brasileiros, tendo sido exemplo de luta e resistência assim como a mulher). Nise era a única mulher de uma turma com mais de cento e cinquenta alunos.

Nise começou na Psiquiatria em 1933, quando foi aprovada em um concurso público para o Serviço de Assistência a Psicopatas e Profilaxia Mental, no Hospital Pedro II, no Rio de Janeiro. Fez do hospital a própria morada, dormindo em um dos quartos do local. Já nessa época, a cordialidade da médica com os pacientes era conhecida dos corredores hospitalares.

Com a chegada dos anos de censura, uma enfermeira do centro denuncia a alagoana ao encontrar livros marxistas em seu quarto, considerados subversivos naqueles dias. A doutora, então, é afastada do serviço público e presa na Casa de Detenção da rua Frei Caneca, em 1936. Foram dezoito meses de clausura, dividindo cela com Olga Benário, esposa de Luiz Carlos Prestes. Se todo mal traz um bem, um fato marcante para a vida de Nise, durante o tempo no presídio, foi conviver com o escritor Graciliano Ramos, preso em sala anexada à cela da conterrânea. Nos escritos de Memórias do cárcere, Graciliano rememora os “olhos fixos, arregalados” da “pessoinha tímida”, que sabia ser boa e muito culta. Outra das obras que escrevera, A Terra dos Meninos Pelados, é uma homenagem à Nise, que inspirou a princesa Caralâmpia, apelido da doutora na infância.

Após sair da prisão, Silveira passou cerca de sete anos longe do serviço público. Quando retornou ao hospital, foi levada por médicos mais experientes para a primeira aplicação de eletrochoque em paciente que faria na vida. Ao pedir que a psiquiatra apertasse o botão do aparelho, Nise respirou fundo e disse um sonoro e firme “não aperto”. Ali começava a luta por uma sociedade sem manicômios. Ofendidos pela postura da rebelde, Nise foi direcionada ao setor de Terapia Ocupacional, considerado de menor valor para tratamentos psiquiátricos naquele período. Sem perder a dignidade, ela não só se dedicou ao trabalho, como construiu um ateliê de pinturas que daria origem ao maior museu de imagens feitas por pacientes psiquiátricos – o Museu de Imagens do Inconsciente.

Alguns dos desenhos feitos pelos frequentadores do ateliê foram encaminhados ao médico suíço Carl Jung, que a aconselhara a estudar os mitos para compreender melhor a alma de seus “queridos loucos”. O Museu de Imagens do Inconsciente ainda resiste dentro do antigo Hospital Pedro II. Hoje são mais de três mil obras a instigar as reflexões de quem passeia pela memória física do espírito aventureiro de Nise, que nadava contra a corrente com perseverança e muita paixão.

Nise é autora de alguns livros e sua vida foi transformada em longa-metragem no filme "Nise - O Coração da Loucura", onde a médica é interpretada por Glória Pires nos anos de retorno ao trabalho no hospital e toda sua trajetória na criação do Ateliê de pintura.

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