Já ouvi assim: cada pessoa é um mundo. Oh, sim, um mundo de dez trilhões de células movendo-se para lá e para cá, dialogando por sinais químicos e elétricos – fora os outros trilhares de microrganismos que rodeiam essas células. Se pensarmos mundo como algo palpável, podemos entender pessoa como corpo – essa soma de braços, pernas, joelhos e faces lembrando uma parafernália orgânica, que merece ser explorada e cuidada em sua riqueza de detalhes. Pois se cada pessoa é um mundo, cada cabeça é um universo, um lugar em expansão. A mente ocupa a posição de infinito: são cerca de cem bilhões de criaturinhas abraçando sinapses quase incalculáveis, o tempo todo. Em cada cabeça é guardada a própria subjetividade do ser (e quantos seres cabem em uma subjetividade, não?).
Mas quem é que se lembra de toda essa complexidade na correria diária? Ao me enxergar como Fátima, fecho-me em ideias que teço sobre esse eu e esqueço que sou átomo da cabeça aos pés. Sim, sou reunião de átomos, pontos indefinidos que quase não existem a não ser pela fé – ou vai dizer que é fácil acreditar em compostos que são noventa e nove por cento espaços vazios? Assim podemos classificar o átomo: a menor unidade, quase não levada em consideração (por nós, que mal pensamos nele, porque os químicos e outros cientistas tagarelam sobre átomos sempre). Mera semelhança com a desatenção ao que se passa no íntimo de cada indivíduo? Falar em subjetividade atômica faria sentido, afinal? As menores unidades acabam sendo as mais importantes – enquanto átomos estruturam a matéria, os pequenos cuidados somados erguem a essência do ser, que pertence ao equilíbrio entre alma, corpo e espírito. Aqui vai um lembrete bom para toda a vida: somos seres holísticos, existimos em totalidade.
Quando pensamos pessoas e suas subjetividades, um bom modo de ilustrar como é incoerente limitar uma receita de acertos e erros nos padrões de comportamento e cuidado da saúde da mente é começar sabendo que, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), não existe definição oficial do conceito de saúde mental. Portanto, quem quer chegar à compreensão das singularidades humanas precisa despir-se de estigmas e pré-conceitos para alcançar o universo alheio, porque tal caminho se faz nas múltiplas – e por que não infinitas – possibilidades de existência. Podemos trabalhar com os possíveis significados de expressões como saúde mental e as possíveis construções que se estabeleceram historicamente para loucura, saúde e doença, até chegarmos aos modelos de percepção que temos hoje. É importante lembrar que tudo é, principalmente, uma questão de contexto. O que antes era tido como insano pode ter-se hoje como glória. Quem garante que os modelos de assistência atuais são o paraíso eterno?
Comecemos, pois, do começo: a palavra saúde vem do latim salutis. Ela origina a ideia de salvar, livrar do perigo, e contempla ainda os significados de saudar e são. No dicionário, a palavra é apresentada como conservação da vida, robustez, vigor, estado em que se é sadio ou são, disposição do organismo, moral ou mental. A saúde é um direito de cidadania, garantido pela Constituição Federal desde 1988, período de surgimento do Sistema Único de Saúde, o SUS. De acordo com o artigo 196, a promoção de saúde é dever do Estado e ele tem a obrigação de garanti-la através de políticas sociais e econômicas que reduzam o risco de doença, além de dar oportunidade de acesso aos serviços e às ações de promoção, proteção e recuperação. Deve-se destacar que a saúde, por ser direito fundamental, tem de ser exigida. Cabe ao Estado utilizar os impostos da população para criar um atendimento médico que supra todas as necessidades dela. A doença é o que vai caracterizar a falta de saúde. E a cura é justamente a recuperação da saúde afetada pela doença.
Quando falamos em saúde mental, podemos assimilá-la como o equilíbrio entre o mundo interno do ser humano, rico em emoções e sentimentos, e as experiências externas, relacionadas a tempo e espaço. Um bom sinal de manutenção da saúde mental é o bem-estar físico, mental, psicológico e social. Reconhecer os próprios limites e agir de maneira a sustentar o autocontrole também é indício de uma mente tranquila. Alcançar uma boa saúde mental significa ainda perceber quando a intervenção alheia é necessária e buscar ajuda nas situações requeridas. Saúde mental certamente é uma área que não passeia com a acepção de facilidade, porque lidar com o outro não é fácil, admitamos; porém, simplicidade é a grande mão norteadora que indicará os melhores afagos para subsistir o afeto incondicional.
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